
Beija-flor é consumidor de melato (Joana Mattos)
Ele tem cerca de 10 centímetros, penas brancas e esverdeadas e, segundo registros do WikiAves, alimenta-se do néctar de flores e de insetos. Mas não só: uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Santa Catarina descobriu que o pequeno Beija-flor-de-papo-branco, o Leucochloris albicollis, é um voraz consumidor do melato de Bracatinga, um líquido doce excretado por cochonilhas que se alimentam da seiva de uma árvore típica do Planalto catarinense.
A pesquisa Efeitos da disponibilidade de melato nas interações ecológicas, riqueza e diversidade de aves no sul do Brasil, desenvolvida por Joana Nascimento de Mattos com orientação dos professores Eduardo Giehl e Guilherme Brito, terá parte dos seus resultados publicados pela revista Journal of Ornithology, reforçando o ineditismo das descobertas realizadas na dissertação de Joana.
Há poucos dados sobre as interações ecológicas a partir do melato da Bracatinga. “Tem bastante coisa relacionada ao mel e abelhas, mas quase nada das interações ecológicas e importância do recurso extra utilização por humanos”, observa o professor. “É um trabalho que começamos e há pouquíssimos estudos pelo mundo. No Brasil, tem só um artigo publicado”, lembra Joana.
Entre os escassos trabalhos publicados no mundo sobre essa interação, há investigações sobre outras espécies de plantas. “Já no Brasil, com a Bracatinga, não tem nenhum publicado. O único é com Ingá sp, outra planta, mas que não tem relação com produção de mel. Então esse será o primeiro com a interação com o melato de bracatinga”, explica a pesquisadora.

A pesquisadora faz a observação das aves (João Garbers)
A ausência de um repertório de conhecimentos sistematizados abriu um mar de possibilidades e registros importantes: na pesquisa, a equipe de ornitólogos registrou 39 espécies se alimentando do melato, 23 de forma direta – o que significa que as outras 16 podiam estar consumindo os insetos que também aproveitam o líquido. Destas, 15 nunca haviam sido flagradas consumindo a iguaria. O beija-flor já era esperado, pelas características da espécie, mas o estudo descreve papagaios se aproximando da árvore, com seu bico grande, e aproveitando o alimento.
“Eu trabalhei com aves desde a graduação, então já era uma área que eu queria seguir. Aí o professor Guilherme lembrou que o Parque Nacional de São Joaquim, que é onde eu fiz a pesquisa, tem muita coisa ainda para ser explorada”, conta. Uma das questões que Guilherme levou à pesquisadora era justamente sobre o melato, que ele observava nas árvores e que possibilitava que os bichos se alimentassem de forma fácil e com pouco trabalho.
Joana “deu um google” em “Melato da Bracatinga” e a curiosidade aumentou. Ao mesmo tempo, viu que o conhecimento científico sobre isso era ainda bastante incipiente, o que a motivou mais para a empreitada. “Tivemos que criar uma metodologia nova para começar o estudo. De todos os dados que a gente coletou, a maioria são novos para essa interação (ave-melato)”, conta.
Na metodologia, a equipe localizou 15 árvores focais e instalou parcelas circulares, com raio de 10 metros ao redor delas. Em cada parcela, contou-se a densidade de árvores da espécie hospedeira e a presença de melato em quatro zonas de altura como um indicador da disponibilidade do líquido.
Depois, o trabalho foi de observação, sempre ao nascer e pôr do sol, quando as aves estão mais ativas: os pesquisadores identificaram e contaram as aves visitantes e de forma concomitante aos registros de consumo direto ou dos insetos possivelmente atraídos pelo melato.
Descobertas

Bragatinga (João Garbers)
Das 39 espécies que a equipe registrou nas observações, 15 nunca tinham sido registradas se alimentando de melato, e algumas delas também nunca haviam sido vistas comendo algo similar, como as que eram tratadas como insetívoras.
“A gente pensou: será que as espécies vão se alimentar? E se sim, o quão importante vai ser?”. A pesquisadora lembra que não fazia ideia se as espécies iam realmente comer de forma abundante e se haveria algum tipo de competição pelo recurso, o que também foi registrado nas observações.
“Os beija-flores são muito territorialistas, então eles estavam ali, literalmente, brigando para comer”, comenta. As interações ecológicas a partir desse recurso foram todas registradas na pesquisa. O estudo descreveu também as chamadas interações agonísticas, que ocorrem quando indivíduos de uma mesma ou de diferentes espécies têm comportamentos agressivos ou competitivos na disputa – neste caso, por melato.
Outras interações, indiretas, também foram identificadas, mas como duas espécies exploravam mais o recurso, quando elas estavam presentes, a diversidade de aves nas árvores diminuía.
Tecnicamente, o estudo ecológico descobriu que a riqueza de consumidores de melato diminui com o aumento da disponibilidade de melato e da densidade da árvore hospedeira. O beija-flor descrito no início desta reportagem e a Setophaga pitiayumi, conhecida popularmente como Mariquita do Sul, foram as espécies mais comuns a monopolizar o recurso .
Isso sugere que estas aves são oportunistas e dominam o melato como fonte de alimento, especialmente sob alta densidade de árvores hospedeiras. “Como a baixa disponibilidade de recursos provavelmente não atrai as espécies mais especialistas e dominantes, a diversidade pode aumentar nessas condições”, pontua a pesquisa. Isso significa que onde há menor disponibilidade do recurso, há chances de maior diversidade de aves, pois as mais territorialistas estariam concentradas em outros pontos.

Popularmente conhecida como “Saíra preciosa”, ave é vista em sua interação com o melato (Joana Mattos)
“Essas que dominam mais acabam não deixando espaço para os outros indivíduos se alimentarem. Então, naquela região ali, naquela árvore especificamente em que ela se alimenta, vai ter menos diversidade de espécies, porque elas acabam afastando os adversários”, sintetiza Joana.
Muitas perguntas
A pesquisadora saiu com mais perguntas do que respostas deste trabalho que ela qualifica como “quase naturalista”, tanto que vai continuar investigando o assunto no seu doutorado, prestes a começar.
Agora, Joana vai investigar como as aves que se alimentam de melato interagem com sua comunidade e o ambiente ao redor, observando diferentes espécies que consomem melato e comparando com a totalidade das aves na região, para medir o quão importante é o recurso para a comunidade total de aves. A ideia também é entender se características como dieta e forma física influenciam esse consumo.

Quete do Sul interagindo com a Bragacatinga (Ariane Ferreira)
Na nova etapa do estudo, a equipe vai utilizar observações em árvores específicas e fotografias para registrar o momento em que as aves se alimentam, além de métodos quantitativos para medir a frequência com que elas optam pelo melato em relação a outros alimentos, como néctar e frutas.
A forma como a quantidade de melato disponível impacta a diversidade e a quantidade dessas aves consumidoras vai continuar no radar da cientista, dessa vez levando em conta as mudanças sazonais e climáticas. Os padrões de domínio e divisão de recursos entre as espécies que se alimentam do melato também vão ser detalhados.
“Durante este primeiro trabalho, tudo me surpreendeu bastante, mas eu acho que principalmente porque eu não esperava que as aves fossem comer tanto melato e com tanta interação de competição entre as espécies. Mesmo no frio de lá, com temperaturas baixas, elas comiam bastante”, comenta, recordando que foi no mês de agosto que observou algo que lhe causou muita surpresa: a chegada dos papagaios consumidores de melato. “Eram pelo menos cinco, alguns deles estavam lambendo diretamente do tronco e outos arrancavam parte do tronco e comiam das patas. Mas depois, em outras épocas, eles não voltaram”.

Bragatinga com melato (João Garbers)
A pesquisadora lembra de outra importância destes estudos, além do ineditismo e de trazer uma primeira dimensão sobre como o melato ajuda na biodiversidade da floresta local. “Possivelmente descobrindo essa importância maior do recurso, isso pode ajudar a conservar mais essa espécie de árvore. A Bracatinga está diretamente associada a Araucária, uma espécie ameaçada, e isso pode ser útil também para a conservação da Araucária e do parque, da região toda”, conclui.
Caso os dados revelem uma diversidade de aves maior do que o esperado utilizando o melato em comparação a outros recursos, Joana reforça que pode ser necessário que se reveja a importância da conservação de árvores associadas a insetos produtores de melato, não só aqui no Brasil, mas no mundo todo.
Amanda Miranda | amanda.souza.miranda@ufsc.br
Jornalista da Agecom | UFSC